Os Descendentes (2011)

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a crítica

Um dos debates mais acesos da nossa contemporaneidade tem sido em torno do capitalismo, em que movimentos como o Occupy ou os hackers Anonymous têm empreendido uma luta feroz contra ideais que se julgam ser responsáveis pela crise económica que o globo atravessa. Olhando para este filme «Os Descendentes», vemos subsrepticiamente tratada a mesma temática, mas mais como impacto nas redes que nos interligam do que nas premissas que fazem do capitalismo a doutrina mãe do mundo ocidental dos últimos 50 anos. Mas o mais curioso ainda é que as motivações de ordem "financeira" são tratadas no seu passado, isto é, Alexander Payne não nos atira com um filme óbvio de crítica ao capitalismo nem nada disso (mais dedicado ao tema foi, por exemplo, «Up In The Air» de Jason Reitman com o mesmo George Clooney), mas grande parte daquilo que o filme mostra teve como consequência um estilo de vida típicamente capitalista, inclusive a relação entre Elizabeth King (Patricia Hastie) e Brian Speer (Matthew Lillard) que nasce de motivações que deixam no ar um golpe do baú ao negócio de Matt King (George Clooney) com a sua família na venda de um terreno. Payne elege a morte como elemento catárquico de aproximação de uma família desagregada pelo luxo que não seria aparentemente suficiente aos olhos do sogro de Matt. "Porque não lhe ofereceste um barco? Nem um mísero barco lhe quiseste dar?" é uma fala que tanto tem de hilariante, como de chocante e absurda, mas elucidativa quanto às motivações dos personagens envolvidos. Ou ainda a ameaça de processo judicial por parte da família de King quando este toma uma decisão polémica acerca da venda do terreno. É certo que a Academia teima em ter sempre um filme desde género na cerimónia dos Óscares («Lost in Translation», «Família à Beira de um Ataque de Nervos», «Os Miúdos Estão Bem», «Um Sonho Possível», «Juno», «Sideways»), cabendo-lhes a honra de representar o melodrama das relações com resquícios de actualidade e de tratado socio-político. Porém, a moda vai e vem, sem nunca atingir a glória máxima na cerimónia dos Óscares. Neste caso, «Os Descendentes» não parece também ser um filme talhado para vencer a tão cobiçada estatueta, apesar de ser um filme de diversas aproximações, todas pertinentes e interessantes.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate
(...) o que sobressai é, por um lado, um argumento capaz de alternar com sensibilidade entre o cómico e o trágico e, por outro, uma mise en scène que se limita quase sempre a executar a transcrição visual do texto”
Vasco Baptista Marques, Expresso