Procurem Abrigo (2011)

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a crítica

Hegel dizia que a subjectividade do individuo seria posta em causa se uma de três instâncias não o reconhecesse como homem: a família, o Estado e a sociedade. Nesta medida o homem dever-se-ia reconhecer a ele próprio, reconhecer o outro e de ser reconhecido. Olhando para este filme de Jeff Nichols fica patente a importância da instância família em nos reconhecermos como individuos responsáveis e sãos. O trajecto que Curtis (Michael Shannon) empreende na luta entre sonho e realidade faz-se com o incondicional apoio da esposa Samantha (Jessica Chastain) e da filha Hannah de seis anos de idade, que é surda-muda. Um apoio que se revela fundamental na brilhante sequência do falso final em que Samantha "exige" que seja Curtis a abrir a porta do abrigo. Uma afirmação da instância "família" contra a adversidade, contra o não-reconhecimento por parte das duas restantes instâncias que entretanto declararam Curtis louco e incapaz. Este personagem brilhantemente interpretado por Michael Shannon reveste-se de pele messiânica e anuncia em tom fervoroso que "a tempestade está chegar". Um julgamento anunciado em sonhos, de forma estigmática que se confunde com o passado esquizofrénico da mãe. Curtis debate-se com um dilema profundo e moral, entre ignorar as revelações e pôr em perigo a família ou fazer tudo para os proteger e acabar por perdê-los mas para a doença. Um dilema que faz um elogio à loucura e ao pathos que cada um de nós tem de fazer contra o mundo, na busca de um reconhecimento. A tempestade, para Nichols, simbolizará a adversidade última, um julgamento sobre os que pensam pela cabeça dos outros e não optam pela "vida boa", elogio que o melhor amigo de Curtis lhe dirige, dizendo que é o melhor elogio que se pode fazer a um homem, curiosamente, o termo também é empregue pelo filósofo Paul Ricoeur quando este fala de uma vida plenamente reconhecida. O tom cartesiano do "eu como totalizante" a meias com a psicanálise freudiana de interpretação dos sonhos (o falso final dá a ilusão de uma perspectiva psicanalítica para acrescentar depois a visão transcendental) são temas aqui retratados e abrem portas a um abrigo que existe nas profundezas de cada um de nós. Um filme destinado a clássico.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate