The Hunger Games - Os Jogos da Fome (2012)

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a crítica

Numa época não definida (no futuro, eventualmente) a civilização desenvolveu-se em classes e castas cada vez mais desequilibradas, onde uma burguesia estéticamente extravagante promove os Jogos da Fome, uma espécie de reality show, onde jovens das aldeias periféricas são tratados como tributo num jogo em que terão de se matar umas às outras até sobrar uma, como forma de pagamento por uma pretensa guerra travada no passado. A metáfora de que as classes dominantes estão a hipotecar o futuro dos jovens não podia ser mais pertinente nos dias que correm, mas o carácter denunciante deste género de filmes tem por vezes o efeito perverso de um filme sociológico de ratificação do desejo de ascensão à classe dominante. Por exemplo, seria interessante perguntar a qualquer rapariga se preferia ser a Katniss do campo ou a da cidade. Aqui sublinhe-se as diferenças entre filme e livro: o desfile de vaidades que vemos quando Peeta e Katniss chegam à cidade ganha preponderância visual embriagadora e hollywoodesca, enquanto que no livro a imagem que nos é traçada é de uma sociedade sem escrúpulos e degradada pela opulência. As diferenças de interpretação são desculpáveis pela velha máxima do perspectivismo, mas não se julgue que neste caso essas diferenças não se traduzem em pormenores que fazem toda a diferença, principalmente visíveis no retracto da sociedade que organiza os jogos. O filme tem uma forte componente mediática em que são retractados os desejos íntimos do cidadão comum em ser visto, em ser o centro das atenções, em aparecer na televisão. Desejo que ainda hoje incendeia tantos jovens que comparecem em massa em castings para programas de TV. Uma das mensagens subreptícias desta história é a da necessidade de ascender à classe dos "vistos", dos que têm direito a "aparecer", mesmo que pouco ou nada tenham de pertinente para dizer. Entre os obrigados, os indiferentes e os que vão porque querem, o desejo de ascensão à classe dominante é comum a todos ao ponto de todos jogarem. Relembro a este propósito uma das frases mais brilhantes da história, em que Peeta diz: "se ninguém atacar, todos deixam de ver e os jogos acabam".”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate