O Cavalo de Turim (2011)

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a crítica

Iniciando com a narração do célebre episódio do enlouquecimento de Friedrich Nietzsche, o cineasta Béla Tarr opta por perceber o que aconteceu ao cavalo ao qual Nietzsche se agarrou, evitando que este morresse pelo chicote do seu mestre. Chegamos assim a uma quinta rural em declínio. Uma família reduzida ao pai incapacitado de um braço e a filha obediente e resignada a essa condição. Dai por diante, vamos assistindo à lenta morte dos dois, quer pela repetição morosa dos mesmos actos inconsequentes ou pela interrupção por parte de um vizinho que anuncia uma tragédia de contornos apocalípticos e por um grupo de ciganos com guia de marcha para o Oeste. Neste ambiente seco e árido, a morte é lenta e anunciada pelo cavalo que absorve uma latência sinistra de quem parece ter desistido de viver. Ambiente que alastra aos humanos. Assistimos à morte do Homem-produtor ou do Homem pré-moderno. Já não há espaço para ruralismos, é altura de debandar para a cidade e para a Modernidade. E embora a tentativa seja feita, os protagonistas parecem resignados a perdurar no espaço decadente que habitam. No dia em que assisti a este filme, tinha lido uma reportagem sobre o concelho de Penamacor, o mais velho de Portugal, cuja morte está anunciada para os próximos anos. Ver «O Cavalo de Turim» reforça a ideia da sociedade cada vez mais centralizada nas grandes cidades, indiferente ao envelhecimento das zonas rurais e consequente desertificação. Um fenómeno com o qual nós portugueses temos enorme proximidade. «O Cavalo de Turim» é um filme que impede um visionamento menos descomprometido, pela realidade dura que acarreta. O preço da modernidade e da actual pós-modernidade é alto, pois anuncia o fim do que havia antes, e neste sentido, custa aos dois personagens perceber que o seu modo de vida já não é sustentável, recusando-se inclusivamente a tentar sobreviver mudando-se para uma cidade. Com uma cenografia fabulosa, «O Cavalo de Turim» encerra traços Bergmanianos que deleitam qualquer cinéfilo, e faz crer no cinema de autor como ainda capaz de nos trazer grandes e misteriosas obras.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate