Tabu (2012)

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a crítica

À excepção de alguns pouquíssimos filmes, as últimas duas décadas de cinema português têm revelado um cada vez maior divórcio com o seu público. Certamente ainda haverá muito boa gente que acorre às salas para assistir de propósito a um filme nacional, mas a incapacidade do cinema português em estabelecer uma ligação afectiva (e efectiva) com a cultura portuguesa, e com a sua especifica linguagem, é bem famosa. A falta de uma precoce educação em cinema nas escolas, a adaptação de muitos vícios telenovelísticos de realizadores e actores e a ausência de produções cativantes, são três das maiores razões, mas não só. Há muito que a forma de fazer cinema em Portugal passou pela sua elitização, preferindo precisamente distanciar-se do público e assim obter a credibilidade dos «entendidos». De vez em quando lá aparece um fenómeno que, por norma depois de receber prémios lá fora, é visto com outros olhos, ou simplesmente é um projecto com maior promoção nos meios de comunicação. Dos brilhantes «Alice» e «Juventude em Marcha» para a megalomania injustificada de «As Linhas de Wellington» e «Sangue do meu Sangue» vai uma grande diferença não só em forma e conteúdo, como em termos de exposição. Ambas as duplas foram reconhecidas mediaticamente, mas num sentido inverso, o que permite ainda ter esperança que bons filmes portugueses não passem em claro perante um público ainda demasiado refém da aprovação externa.

«Tabu» de Miguel Gomes («Aquele Querido Mês de Agosto» 2008) é o mais recente exemplo desse reconhecimento tardio. Premiado no estrangeiro, depois de uma discreta passagem pelas salas nacionais, a Cinemateca teve a feliz ideia de exibi-lo pela segunda vez, a propósito dos prémios Lux. Como Luís Miguel Oliveira da Cinemateca curiosamente disse antes da sessão (18 Dez 21h30), a moldura humana na primeira exibição foi consideravelmente menor do que na segunda, sublinhando-se aqui esta mania dos portugueses em não dar atenção ao que é seu. Pelo menos, por seu lado, Miguel Gomes parece gostar de dar atenção aos portugueses e à essência do que é ser português.

Se num contexto de globalização, a procura de uma linguagem cinematográfica própria de um país exige que se olhe para a «cultura de si», «Aquele Querido Mês de Agosto» já havia demonstrado uma vontade em explorar territórios folclóricos com uma visão muita pessoal e emocional do «ser português». Uma vontade em exprimir a identidade nacional como uma herança forte e que merece ser preservada, aproximando os portugueses dos traços genuínos da sua cultura, sem negar alguma vez a realidade premente do multi-culturalismo. «Tabu» começa curiosamente com uma transição assombrosa que pode ser uma metáfora de um corte definitivo com o cinema português conservador e com os vícios novelísticos. Pode até ser interpretado como o fim/início de uma nova era do cinema português.

Dividido em duas partes, a primeira («Paraíso») apresenta-nos os últimos dias de uma senhora chamada Aurora (é difícil não pensar várias vezes em FW Murnau, de onde Miguel Gomes tira o nome do filme de 1931) que entre uma realidade aumentada e a senilidade, persegue as pistas de um passado ainda incompreendido para o espectador. Nesta primeira parte, Gomes opta por um tom distante, de espaços vazios e foras de campo, uma realidade contemporânea sem certezas e de muita solidão. Nos diálogos, existe um humor discreto, com salpicos de burlesco, que clássicos do cinema português tão bem sabiam utilizar, um humor muito português, das ironias e do egoísmo. Aurora (Laura Soveral) é uma figura multifacetada, cómica por vezes e tresloucada por outras. Esconde um passado que muda completamente a visão que temos da sua identidade e será «Paraíso Perdido» a fornecer o essencial para a construção desta nostálgica personagem.

Na segunda parte, já em jeito de narração em voz-off, somos transportados para África em época pré-guerra colonial. Aurora rejuvenesce e assistimos a um romance com paralelos com «As Pontes de Madison County» e «África Minha». Da faceta mais dura e irónica da primeira parte, passamos para um estado de sonho, com cenários idílicos e de paraíso, à sombra de um monte Tabu e de gigantescas plantações de chá. Não existem diálogos, optando Miguel Gomes pelo mudo e pela subtil mas inteligente banda sonora, que carrega nos braços, esta narrativa agora mais convencional.

A ponte que se faz entre as duas partes reside, creio, na noção do «eu» que não pode existir sem uma ligação profunda ao passado. Isto é, numa contemporaneidade que insiste em arrancar das pessoas as suas raízes, fazendo-as esquecer a sua História, em nome de uma sociedade mais avançada e tecnológica, a identidade cultural é uma vacina. Neste filme, Aurora só pode ser compreendida na apreensão do seu passado. Aliás, um país e uma cultura só podem ser compreendidos à luz do seu passado, e o passado (e presente) de Portugal é o pano de fundo no qual todo o filme submerge. Se em «Paraíso» são visíveis as marcas de um país desagregado e desapaixonado, com a sequência do absurdo dos rituais das manifs a marcar profundamente a atmosfera deste primeiro tomo, em «Paraíso Perdido», o pano de fundo são as colónias africanas, o paraíso terreno e exótico, onde a felicidade era prometida, mas emerge hoje como ferida-maior de uma nação em modo crise-existencial. Um país que perdeu o seu paraíso (que nunca verdadeiramente lhe pertenceu) e parte da sua identidade e não mais se reencontrou. Reconhecemos assim Portugal através das marcas profundas do colonialismo, que pouco mais foi do que uma aventura adúltera sem final feliz possível. Apesar da densidade do argumento, também é verdade que dizer que «Tabu» reinventa o cinema português é um claro exagero. Diria antes que lhe confere uma nova magia, onde uma narrativa convencional é habilmente instrumentalizada para a obtenção de um determinado resultado. Isso sublinha o cinema como instrumento poderoso para contar a mesma história de formas contextualmente diferentes, captando diferenças culturais e dando possibilidade a quem a conta, fazê-lo com uma personalidade distinta. O maior triunfo de Miguel Gomes, foi sim, a capacidade que teve em aprofundar algo que já trazia de «Aquele Querido Mês de Agosto», que é a utilização de uma genuína linguagem cinematográfica enraízada na cultura portuguesa que a aproxima, sem esforço, de um público à partida desinteressado, sem comprometer (antes pelo contrário) a propriedade intelectual da sua obra.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate
(...) depois disto, Gomes já não é um "grande cineasta português", é um grande cineasta, ponto final.”
Vasco Baptista Marques, Expresso