O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012)

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a crítica

Terá sido por acaso que Christopher Nolan fez um vilão mascarado invadir o edíficio da Bolsa de Gotham e disparar recados sócio-económicos? Terá sido por acaso que assistimos a confrontos entre polícias e manifestantes (tratados como prisioneiros em fuga)? Terá sido por acaso que Nolan envia-nos o recado de que é preferível um sistema jurídico semi-corrupto, mas controlado, do que presidido pela populaça e por um louco que faz o que lhe apetece? Terá sido por acaso que Batman mais parece um justiceiro ao serviço do poder político do que defensor da justiça e que ultrapassa os seus traumas pessoais para servir um bigger purpose? A ideologia política contextualizada em recentes eventos marcantes atravessa este último capítulo do Batman de Nolan, um primado de moral conservadorista traumatizado pelo terrorismo. Bane (que tem uma entrada formidável mas que é vítma de uma morte lenta num enredo que prefere a certo ponto esquecê-lo) é o seu símbolo e é retractado como um inimigo consciente e inteligente, com um objectivo definido, ao contrário da anarquia de Joker. Um inimigo que inviabiliza uma solução baseada na emoção, mas antes na necessidade de transcendência individual e de percorrer o mesmo caminho do próprio inimigo que combatemos. Segundo Nolan, para combater o mal é essencial ser-se terrivelmente implacável, ter-se noção da própria mortalidade e, claro, uma muita própria noção de amor à pátria. Se Bruce Wayne seria à partida de «Batman, O Início» um anti-herói que praticava a justiça como meio de apagar aos seus traumas de infância, ao fim do terceiro capítulo é um herói abraçado pelo próprio sistema que combate e talvez nisto Nolan tenha sido perspicaz. O final é um anti-clímax, onde Batman/Bruce Wayne encontra paz a servir o sistema judicial/político existente. Ou seja, para Nolan, a única forma de se obter redenção/paz é fazendo-o ao serviço das instituições existentes e não de uma forma independente. Em cinema, a propaganda pode fazer-se de variadas formas, sendo que a utilização da mitologia urbana é uma das mais capazes de expansão ideológica. «Os Vingadores» e este Batman são claramente exemplos de uma indústria do blockbuster que actualmente pouco mais serve do que disseminar essa mesma ideologia política.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate