Argo (2012)

poster

a crítica

O que poderia ser (e até começa por ser) um filme-documentário sobre o conflito israelo-palestiniano e o papel que os EUA desempenharam, como por exemplo, «Occupation 101» tão bem descreve (à luz dos recentes acontecimentos na Faixa de Gaza, o timing dificilmente seria melhor), «Argo» acaba por ser apenas uma demonstração da promiscuidade entre política/Hollywood sem que haja uma crítica frontal ao assunto. Este terceiro filme de Ben Affleck relata o plano de resgate de seis fugitivos da embaixada dos EUA no Irão, aquando das manifestações anti-americanas que exigiam a repatriação do xá Reza Pahlevi por crimes contra o povo. Este plano teve classificação secreta, até que Bill Clinton em 1997 o ter tornado público. Num ambiente que recorda em parte «Os Homens do Presidente» (Alan Pakula) e «Manobras na Casa Branca» (Barry Levinson), num misto com fitas de espionagem, «Argo» inicia-se com uma hábil sobreposição de imagens verídicas e ficticias e um relato em voz off dos acontecimentos. Este teor de denúncia política em simultaneo com o humor sarcástico com que os personagens de John Goodman e Alan Arkin retractam Hollywood, resultam extremamente bem, até que subitamente o tom muda por completo. O cinismo deste momento de viragem constata-se nos últimos 30 minutos em que Ben Affleck inflecte totalmente a direcção do argumento, passando de acção imparcial e relatora de factos, para uma visão heróica e americana do touchdown no último segundo, com suspense a martelo q.b.. Achei curioso o facto de Affleck nunca questionar, por exemplo, se os diplomatas americanos fugitivos serão apenas isso mesmo: diplomatas. Há até uma linha de diálogo dita por um secundário que diz 'a CIA opera no país e não se apercebe que há uma revolução eminente?'. Infelizmente esta fala nunca chega a ser desenvolvida. Uma vitimização dos fugitivos necessária para a acção tal como fica, mas insuficiente para fazer de «Argo» um filme minimamente credível. Entretém e não chega a ser ofensivo, mas é claramente um filme que não fica ao nível da importância histórica do evento abordado.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate