Cloud Atlas (2012)

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a crítica

Já o filme mostrava as suas primeiras imagens na Internet e algo em mim dizia que, apesar de «Cloud Atlas», o livro de David Mitchell, ser tido como intraduzível para linguagem cinematográfica, estaria aqui muito provavelmente o acontecimento do ano. Sim, bem sei que foi o ano dos «Vingadores» e do final da saga «Twilight» mas, por favor, mantenhamos a conversa nos meandros do bom gosto.

Para quem já leu o livro, certamente que perceberá a dificuldade de adaptação para cinema. O livro divide-se em várias narrativas temporais inteligentemente interligadas através de um fenómeno intrínseco de reencarnação dos seus personagens principais. Todos são de tal forma bem desenvolvidos que deixam uma marca sentimental no leitor, incluindo os antagonistas. Mas não só os personagens são de difícil adaptação. Relembro que o livro se passa em diversas datas entre o passado, presente e futuro, onde cenários que temos como verídicos (porque a História os dá como conhecimento de facto), flutuam por entre hipotéticas visões pós-apocalípticas. Juntar todos estes ambientes num mesmo filme, seria teoricamente uma tarefa de elevado grau de complexidade, isto se queremos que tudo funcione na perfeição.

Perfeição, passando aqui já para uma apreciação ao filme de Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski, que fica perto de ser conseguida. Tanto os personagens, brilhantemente representados pelos seus camaleónicos actores (com destaque natural para Tom Hanks e principalmente para o carismático Hugo Weaving), como a fusão temporal soberbamente reconstruída em toda a linha.

Mas a vitória maior de «Cloud Atlas» nem é a reconstrução «física» do filme, mas antes todo o ensinamento bíblico que veicula, de que cada acção individual tem repercursões no futuro da comunidade, que é um aspecto crucial no qual hoje todos nos deveríamos debruçar. Principalmente porque vivemos na era do individualismo, da competitividade e do empreendedorismo. Um projecto que em vez de colocar o individuo e o seu talento ao serviço do colectivo, prefere motivá-lo para aquilo a que Thomas Hobbes chamou de «luta de todos contra todos». «Cloud Atlas» (livro e filme) propõe uma reflexão do indíviduo para as suas acções de forma a despertar a sua consciência para aquilo que está certo, que é também o melhor para a comunidade, em vez de lançá-lo numa jornada em que o individuo vê os demais apenas como competição ou meio-para-um-fim, como a sequência de Sonmi-451 e da empresa Papa Song nos demonstra, num terrível retracto de uma sociedade profundamente «economicizada».

Curiosamente, esta semana Brad Pitt protagoniza um filme de mafiosos cujo chavão é precisamente, «na América é cada um por si». Num raro caso de complementaridade (coincidência, de certeza), podemos dizer que um («Mata-os Suavemente») retracta o microsmos da humanidade e o outro uma visão macrosociológica. Respectivamente, a causa e a consequência.

«Cloud Atlas» é para mim o acontecimento cinematográfico de 2012 (e ainda falta o «The Hobbit»), pela soberba adaptação que verga um desafio para muitos impossível de realizar, e por toda a ideologia que transporta. Um verdadeiro clássico contemporâneo.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate