Anna Karenina (2012)

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a crítica

Uma adaptação literária acarreta sempre uma responsabilidade acrescida e ainda mais quando falamos de um clássico como é «Anna Karenina» de Leo Tolstoy. O livro encerra em si demasiados assuntos tratados ao longo de centenas de páginas que um filme de 2 horas é manifestamente insuficiente para lhe fazer justiça. Talvez sabendo isto Joe Wright preferiu dar ao espectador uma visão mais exuberante do que uma adaptação convencional. Isto é, prefere que se fale dos mecanismos de adaptação e menos da verossimilhança do argumento face ao livro. Mecanismos esses que fazem com que o filme seja em grande parte rodado dentro de um teatro. Wright parece assim colocá-los como que a representar dentro do próprio filme esses personagens e não a encarná-los. Um dos maiores receios que tinha pessoalmente era ver e ouvir actores britânicos a interpretar personagens russos e Joe Wright optou por perservar a distância entre actores e os personagens de modo a que o público percebesse que estes eram somente uma representação teatral e não uma tentativa de reinvenção. Inteligente aproximação, creio. Quando à adaptação em si, (mesmo que Wright a queira desvalorizar. é vital falar dela), parece-me que acerta no tom histórico com um ambiente de saturação político e aristocrático que se vivia na Rússia em finais do Século XIX e a influência da importada cultura parisiense; como no retrato da estratificação social e de uma sociedade altamente burocrática. São pormenores que Wright trouxe para o filme e que o enriquecem sobremaneira. O maior problema estará na história central, primeiro ofuscada pelo romance entre Kitty (Alicia Vikander) e Kostya (Domhnall Gleeson) e depois pelo péssimo casting que recrutou Aaron Taylor-Johnson para o papel de Conde Vronsky. Não só o argumento é extremamente antipático para o seu vital personagem, como a sua presença/personalidade fica bastante distante da descrita por Tolstoy no seu romance. Quanto a Anna Karenina e Keira Knightley, pode dizer-se que é o papel possível. Keira não é a actriz mais talentosa que se conhece, mas representa o papel com enorme convição, deixando certamente a sua marca no espectador com momentos de grande inspiração. Mas não será neste filme que será feita justiça a Anna Karenina. Um símbolo de emancipação feminina, que Tolstoy sublinha como essencial para a modernidade das sociedades mas que também condena veementemente num relação de amor-ódio entre autor e personagem, ódio que Tolstoy enfatiza numa contraposição com o retrato da mulher burguesa mas humilde (Kitty) como tão bem o filme também representa. A dicotomia entre os dois tipos de mulher (ambas emancipadas à sua maneira), fulcral no livro, não me parece de todo bem conseguida no filme. Tendo em conta a magnitude da obra literária, podemos dizer que Joe Wright fez um filme que sai valorizado perante um livro tão complexo.”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate