00:30 Hora Negra (2012)

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a crítica

Olhando para os nomeados para os Óscares, é fácil perceber que houve este ano, mais do que nunca, uma influência política decisiva. Por um lado temos a profunda História norte-americana num biopic de Abraham Lincoln, por outro uma versão do resgate de seis fugitivos da embaixada dos EUA no Irão em pleno conflito israelo-palestiniano («Argo») e, por último, a caça ao homem mais procurado de todos os tempos, Osama Bin Laden, neste «00:30 Hora Negra».
Se o tema médio-oriente era até há pouco tempo sinónimo de tabu, apenas desenvolvido por nomes sonantes e sempre em formato drama, devido às feridas do 9/11 estarem ainda abertas, aparentemente já não são só dramas como «World Trade Center» e «No Vale de Elah» que podem almejar a grandes vôos. Já é permitido empreender verdadeiros filmes de guerra, com orçamentos milionários e bastante especulação. Em «00:30 Hora Negra», somos assim conduzidos numa investigação à CSI, onde todos os meios tecnológicos estão à disposição, com a agravante da tortura ser usada como qualquer outro instrumento (chega-se ao cúmulo de se dar a entender que as declarações de Obama contra as torturas, foram um empecilho à investigação) policial. Kathryn Bigelow toma uma opção consciente em focar as objectivas em Maya (Jessica Chastain), sem que haja um efectivo desenvolvimento da personagem. Existe sim, um ambiente de pressão para obtenção de resultados, camuflado com a necessidade de vingar colegas de trabalho com os quais o desenvolvimento afectivo durante o filme é quase nulo.
Quando digo que «00:30 Hora Negra» é essencialmente um filme-político sem algo mais que atraia a não ser o facto de abordar a caça a Bin Laden, não quer isto dizer que questões essenciais de ordem política sejam minimamente desenvolvidas. Antes pelo contrário. Foca-se numa narrativa descritiva, de sobrelevação dos intervenientes como se de heróis homéricos se tratassem. Existe um esforço de humanizar essa "caça ao terrorista", afastando motivações políticas e todos sabemos que em situações do género, afastar deliberadamente uma coisa da outra é incrívelmente ingénuo. Não deixa, no entanto, de ser uma perspectiva aceitável a partir do momento em que sabemos que a caça se faz ao homem que orquestrou os ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001 e a visão é a de quem sofreu esses ataques.
Contudo, «00:30 Hora Negra» não faz mais do que perpetuar (com base em muita especulação) a tão propalada "guerra ao terrorismo", em vez de levantar questões mais pertinentes, para que se perceba exactamente como se chegou a um determinado "estado de sítio". A comparação atroz que se faz entre os avanços da investigação e o número de mortos no 9/11 é uma realidade chocante, que prova de alguma forma, a conotação vingativa que a invasão ao Afeganistão teve como propósito, e não chega justificar a guerra com meras reacções emocionais. Bigelow teve aqui na minha opinião um momento de verdadeiro mau gosto sem o qual o filme passava bem. Como fita de acção, «00:30 Hora Negra» é uma espécie de "apogeu" dos filmes sobre o conflito no médio oriente (mais não seja porque retracta o seu momento capital), com interpretações fortes de Jessica Chastain e Jason Clarke. ”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate