A Noite dos Mortos-Vivos (2013)

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a crítica

O cinema de terror teve uma história que ilustra bem a evolução do próprio cinema no seu todo. Os primeiros filmes tinham como objectivo principal utilizar os jogos de sombras, os planos muitos aproximados e a arquitectura, para tecer duras críticas políticas e sociais, nomeadamente na Alemanha dos anos 20. O Expressionismo abriu portas ao sobrenatural no cinema e a partir daí o fenómeno foi adquirindo diferentes características. Quer tenham sido os filmes nerd da Hammer, ou o cinema de culto italiano, passando pelo suspense hitchcockiano, todas estas facetas do horror tinham um contexto próprio onde estavam inseridos. Quer fosse a guerra fria ou um retrato de uma Europa moralista, a pertinência dos filmes de terror era justificada nos assuntos abordados.
Porém, a partir da década de 80, o género tornou-se objecto de exploração comercial desmesurada. Hitchcock era naturalmente um cineasta mainstream, mas podemos salvaguardar a ideia de que ainda não existia ou, pelo menos, ainda não estava em plena vigência a cultura de massas e do espectáculo, sendo que um sucesso seu seria sempre distante de um qualquer filme romântico feito na mesma época. O próprio Hitchcock sofreu este gosto do público pelos romances e filmes de espionagem. Pelo menos até ao filme mais explícito e controverso a que habilmente chamou de «Psycho». É inclusivamente seguro dizer que «Psycho», mesmo na sua genialidade, deu origem a uma torrente de novos filmes três décadas mais tarde. Falo obviamente dos slashers. «Halloween», «Sexta-Feira 13» e «Pesadelo em Elm Street» são alguns dos mais óbvios. Neles não interessa tanto a história ou o contexto, mas apenas se eram um bom veículo de pregar sustos e de imaginar mortes criativas. O humor negro adquire igualmente um papel mais vincado e que obteve o seu apogeu em «Evil Dead» de Sam Raimi, «Braindead»/«Bad Taste» de Peter Jackson e «Re-Animator» de Stuart Gordon. Para além do terror, os filmes passam a ter uma enorme componente de gore e comicidade que lhes trás novas possibilidades mas também lhes retira toda a seriedade ou possibilidade de serem aquilo que foi por exemplo, «Dawn of the Dead» de George Romero, uma profunda crítica social à sociedade de consumo.
A nova vaga que surge em meados da década de 90, trás um terror ainda mais comercial. «Scream» de Wes Craven, renega o gore e a matança fácil, para carregar em estereótipos adolescentes e num terror psicológico. Escusado será dizer que o sucesso trouxe dezenas de réplicas como «Mitos Urbanos» de Jamie Blanks, «Sei o Que Fizeste no Verão Passado» de Jim Gillespie ou «O Último Destino» de James Wong.
Presentemente, o terror está nivelado pela sobre-exposição aos espectadores a plots que se copiam entre si. Raros são os casos de reinvenções que trazem alguma coisa de novo e para agravar o problema, o subterfúgio pela falta de audiência fez regressar o explícito e o gore. Os found footage marcaram o seu espaço, mas perderam-se nos inevitáveis clichés, enquanto que «Saw» de James Wan e «Hostel» de Eli Roth deram o mote com torturas e sangue quanto baste.
Assim, na última década, o terror tem sido um género apostado mais nas caracterizações e nas quantidades épicas de sangue, do que em desenhar uma boa história, embora existam felizmente filmes que aprazem ver, mesmo sem um argumento revolucionário, como «Martyrs» de «Pascal Laugier, «Phaze 7» de Nicolás Goldbart, «A Descida» de Neil Marshall e «Nevoeiro Misterioso» de Frank Darabont.
No meio de tudo isto, não esqueçamos que começaram a surgir os inevitáveis remakes.
«Evil Dead» é o mais recente reboot de um clássico de horror. Fede Alvarez dirige um filme que não foge do original, mantendo o humor negro aqui e ali, retira o cliché dos adolescentes que se isolam para ter sexo e introduz um twist inteligente e credível de um grupo de jovens que procuram no isolamento ajudar uma amiga a ultrapassar a dependência das drogas. Por outro lado, o uruguaio aposta numa versão mais gory de «Evil Dead». Como se já não bastasse o original, aqui o propósito é única e exclusivamente ser o mais explicito possível. O espectador retirará disto o que quiser: entretenimento gore e cheio de absurdos (a sequência da mão pressa debaixo do carro é de morrer a rir) ou simplesmente mau gosto repleto de lugares comuns e terror facilitista. «Evil Dead» reflecte muito da evolução da História do cinema, pelo facto de ser relativamente fácil hoje entreter e cativar os espectadores com recurso a tecnologia de ponta e caracterizações mais realistas. Um filme que apesar de tudo entretém, mas que será esquecido também muito rapidamente. ”
Paulo Figueiredo, Cinema PTGate